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Enxaqueca e Disfunção Temporomandibular (ATM / DTM)

Atualizado em 10/05/2021 por Dr. Alexandre Feldman

Enxaqueca Não É Causada Por Disfunção da ATM.

Disfunção da ATM e enxaqueca são dois problemas diferentes, e um não causa o outro.

Disfunção da ATM e enxaqueca são dois problemas diferentes, e um não causa o outro.

Talvez você nunca tenha ouvido falar em disfunção da ATM (abreviação de Articulação Têmporo-Mandibular). Mesmo assim é melhor ler atentamente este artigo, especialmente se você sofre de enxaqueca. Pois se você tem enxaqueca, existe boa probabilidade de algum profissional de saúde mal informado atribuir sua enxaqueca a tal disfunção. E sugerir tratamentos muitas vezes invasivos (cirurgia), longos (procedimentos ortodônticos como aparelhos dentários) e dispendiosos, que você poderia acabar aceitando, na única esperança de que tais tratamentos resultem na melhora da enxaqueca. Já adianto que este não é necessariamente o caso. 

Infelizmente, por pura falta de informação, há muitas pessoas tratando disfunção na ATM, com esperanças de “curar” a enxaqueca.

É que alguns profissionais colocam na cabeça de muitos enxaquecosos que o problema deles é causado por disfunção da ATM. E este simplesmente não é o caso.

Disfunção da ATM e enxaqueca são duas coisas independentes e diferentes uma da outra. Porém muito confundidas. É errado e simplista assumir que “melhorando a disfunção, melhora sempre a enxaqueca”. Ou pior ainda, que a enxaqueca seria causada pela disfunção.

O Que é ATM

Anatomia básica da ATM

ATM – Anatomia básica

A ATM, ou Articulação TemporoMandibular, é uma articulação que conecta a mandíbula ao crânio. Nós temos duas ATMs, uma de cada lado da mandíbula, e elas se localizam imediatamente na frente dos ouvidos. Essa articulação é quem dá a mobilidade necessária para falar, mastigar, abrir e fechar a boca.

A parte inferior (mandibular) da articulação temporomandibular é arredondada, recebe o nome de côndilo, e desliza num encaixe denominado fossa mandibular, localizada no osso temporal do crânio (daí o nome articulação têmporo-mandibular). Entre o côndilo da mandíbula e seu encaixe na fossa mandibular, fica um pequeno disco articular, composto de cartilagem e tecido fibroso, que atua absorvendo o impacto e distribuindo as forças entre as estruturas em contato.

Associados à articulação temporomandibular, existem ligamentos (ligamento temporomandibular, estilomandibular, esfenomandibular, otomaleolar e discomaleolar, estes dois últimos conectando a articulação ao ouvido médio).

A inervação da articulação temporomandibular fica a cargo do ramo mandibular do nervo trigêmeo.

Além disso, a ATM recebe suprimento sanguíneo através de artérias e veias.

O que é disfunção da ATM 

O termo é extremamente genérico – ou seja, não significa uma única doença específica. Esse termo pode ser utilizado para se referir a todo e qualquer problema envolvendo a articulação temporomandibular propriamente dita. Ou seja, tanto côndilo, fossa e disco, quanto ligamentos, tendões, músculos, nervos, artérias, veias e outras estruturas ligadas ou interconectadas. Se considerarmos que a ATM tem interconexões com:

  • ouvido,
  • pescoço,
  • nuca,
  • coluna e todo o resto do corpo (afinal, todo o nosso corpo está, efetivamente, interconectado),

então não é errado, conceitualmente falando, associar indiretamente qualquer problema ou doença à ATM.

O que NÃO se deveria fazer, no entanto, é atribuir relação causa-efeito entre disfunção de ATM (um termo extremamente genérico, como já vimos) e doenças como a enxaqueca, cefaleia do tipo tensional, ansiedade, depressão e outras doenças que na verdade são reflexos de uma disfunção neuroquímica (conforme explico no meu livro).

Trate disfunção da ATM em separado da enxaqueca

Se um profissional de saúde disser que você tem disfunção da ATM, peça que explique qual a natureza dessa disfunção. Em outras palavras, qual ou quais componentes da ATM estão disfuncionais? Musculatura? Tendões? Nervos? Disco? Etc. Uma vez explicada a natureza da disfunção, pergunte o que causou essa disfunção e qual o tratamento proposto. Acima de tudo, pergunte quais as perspectivas de que o tratamento efetivamente corrija ou minimize a disfunção.

Por último, pergunte quais os benefícios do tratamento proposto. Se um dos benefícios enumerados for diminuição significativa da enxaqueca, sugiro que fique alerta. Pois a informação mais realista e correta seria que:

  1. embora possa ser necessário cuidar dos dois problemas (disfunção da ATM e enxaqueca), deve-se tratá-los em separado. E que:
  2. Na grande maioria dos casos, não se deve atribuir enxaqueca à disfunção da ATM.

Desencadeante? Pode ser. Causa? Nunca.

Uma disfunção da ATM pode ser mais um item numa lista de desencadeantes, mas não de causas, da enxaqueca. É lógico que dependendo do tipo de disfunção, ela pode desencadear (mas não causar) mais enxaqueca em quem já tem. O problema é que, no afã de encontrar alguma causa para a enxaqueca, muitos sofredores acabam realizando inúmeros exames. Podem acabar encontrando “achados de exames” que não possuem maior repercussão clínica. Mas que, de outra forma, não estava sequer causando sintomas, muito menos dor de cabeça. Porém infelizmente, muitas vezes acaba se atribuindo a essa alteração toda a dor de cabeça. Portanto, cuidado.

Você já teve disfunção de ATM tratada diagnosticada e atribuída como “a causa” da sua enxaqueca? Foi prometido que, tratando da disfunção, acabaria com a enxaqueca? Já fez um tratamento que acabou piorando sua enxaqueca? Se sim, você mais que ninguém deve compartilhar este artigo na rede social, para que outras pessoas possam se informar e buscar tratamento adequado e em separado para os dois problemas.

Consultas – Informações

Tópico: A Enxaqueca/ Desencadeantes

Sobre Dr. Alexandre Feldman

Médico (CRM-SP 59046) com quase 40 anos de prática clínica, dedicado ao tratamento de enxaqueca e dor de cabeça persistente, incluindo cefaleias crônicas e outras cefaleias primárias, como cefaleia em salvas, hemicrania paroxística crônica, hemicrania contínua e cefaleia tensional. Seu trabalho é orientado pela compreensão dos mecanismos biológicos da dor, integrando fisiologia, metabolismo, sono, ritmo circadiano, alimentação e estilo de vida, com foco no controle de longo prazo, não apenas no alívio pontual das crises. Autor do best-seller Enxaqueca - Só Tem Quem Quer, e de diversos outros livros sobre enxaqueca publicados desde os anos 1990, incluindo "Cefaleias Primárias - Diagnóstico e Tratamento" (Editora Artes Médicas, 1995), voltado para médicos. Desde 1998, mantém o site Enxaqueca.com.br, no ar há quase 30 anos. Atende presencialmente em São Paulo e online para pacientes no Brasil e no exterior.

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